O RETRATO DOS CADERNOS - A LITERATURA ESTRANGEIRA NOS SUPLEMENTOS LITERÁRIOS FRANCESES E BRASILEIROS NOS ANOS 90
O objetivo deste ensaio é entender qual o lugar da literatura estrangeira nos suplementos literários na França e no Brasil, nos anos 90 e como se processa a questão dos cânones literários. Para tal foram selecionados quatro suplementos de diferentes orgãos da grande imprensa, significativos para o campo editorial e jornalístico. Foram os cadernos Idéias do Jornal do Brasil, Mais! da Folha de S. Paulo, Le Monde des Livres do Mondee Les Livresdo Libération. Ficou claro no desenrolar do trabalho, como os dois universos – dos suplementos literários no Brasil e na França, assim como seus produtores – têm mais pontos de contato do que se supunha inicialmente. A meu ver, os suplementos literários nos dois países passaram por inúmeras transformações ao longo de suas histórias e hoje podem ser caracterizados como cadernos de livros que tratam de literatura, dos escritores e do mercado editorial. Não sendo mais um espaço de crítica literária, mas um lugar predominantemente jornalístico com contribuições mais ou menos freqüentes dos acadêmicos. Tal fato pode lançar luz sobre o lugar dos livros clássicos nestes cadernos.
Os suplementos
Todos os quatro suplementos estão submetidos às regras básicas do jornalismo: clareza, objetividade e concisão (Rossi,1980). Mas cada um dos quatro selecionados vai dar o seu tom a essa “mistura” de conceitos. Estão sujeitos à influência do tempo e também à questão da novidade, como se eles definissem suas especificidades de cadernos de livros e suplementos literários, mas não negassem a sua situação de parte de um jornal diário, que vive da busca e da redação da notícia.
. O nome escolhido para os quatro suplementos merece um comentário. Os franceses enfatizam o seu perfil de cadernos de livros em seus títulos: Les Livrese Le Monde des Livres. O primeiro mais sintético e o segundo apontando para um grande espectro - o mundo e estabelecendo um elo com o próprio nome do jornal a que pertence: Le Monde. Os cadernos brasileiros, ao contrário, parecem “fugir” das palavras livro e literatura, escolhendo outras mais amplas como Idéiase Mais!. O caderno do Jornal do Brasilse pretende um espaço de discussão sobre idéias e livros, como afirma sua própria apresentação ao leitor. O Mais! é fruto de uma junção das editorias de livros, cultura e ciência e a escolha deste advérbio parece reforçar a idéia de soma de setores, ao mesmo tempo em que não situa o leitor ou apresenta o caderno, já que o título é vago e não delimita um caderno de livros, nem de ciência ou de cultura. Posso supor que nesta opção de retirar de seus nomes a palavra livro, há uma tentativa de conquistar leitores que normalmentenão leriam estes cadernos.
Um outro dado interessante é a escolha do dia da semana para a publicação dos cadernos nos dois países. Os suplementos dos jornais franceses saem às quintas-feiras e os dos brasileiros nos fins de semana (Idéiasno sábado e Mais! no domingo). Isso faz pensar no critério para essas determinações de dias e em que medida isso equaciona a discussão tempo e leitura. Quinta-feira é um dia de semana comum, mais perto do fim de semana, tempo associado ao trabalho e não ao lazer. Os suplementos franceses circulam nestes dias há muito tempo. Esse dia da semana escolhido implica em se poder afirmar que, diferentemente dos jornais brasileiros, os franceses inserem estes cadernos na rotina do trabalho e do estudo. Ao contrário do que acontece com o Idéias e o Mais!. Estes privilegiam uma leitura descompromissada com o tempo e a relacionam ao ócio. Como bem salientou Silviano Santiago(1993;14) em seu artigo sobre a crítica literária nos jornais.
Vale a pena deter-se um minuto na lógica do ‘suplemento’. Complemento é a parte de um todo, o todo está incompleto se falta o complemento. Suplemento é algo que se acrescenta a um todo. Portanto, sem o suplemento ele apenas ficou privado de algo a mais. A literatura (contos, poemas, ensaio, crítica) passou a ser esse algo a mais que fortalece semanalmente os jornais através de matérias de peso, imaginosas, opinativas, críticas, tentanto motivar o leitor apressado dos dias da semana e preencher o lazer do weekend de maneira inteligente. O suplemento tem também a sua raiz fincada no emprego do tempo burguês: a notícia que transmite a ação ocupa o burguês durante os dias de trabalho, enquanto a matéria literária que reclama o tempo da contemplação o envolve durante os dias de lazer”.
Josyane Sauvigneau, editora doMonde des Livres, estranhou a idéia de os suplementos dos jornais brasileiros circularem no fim de semana. Na França, a seu ver, isso seria impensável. As pessoas viajam, vão para o campo, vão ao cinema, não compram jornal nesses dias. São dias fracos em termos de venda de exemplares, ao contrário do que acontece no Brasil, quando o domingo é o dia mais forte. Ela ressaltou ainda um fato que lhe permite assegurar a importância desse suplemento: o dia em que ele circula é o de maior venda do jornal na semana. Mas isso, na sua opinião, só poderia ser colocado à prova se o caderno fosse retirado do seu dia e publicado em outro, o que evidentemente nunca foi feito. Em relação ao Libération acontece o mesmo, o dia de publicação de seu caderno de livros é o de maior vendagem. Esses dados apontam para o interesse e a importância destes cadernos para o jornal. Lá eles provocam venda, aqui eles são produzidos em dias de maior venda e vão a reboque.
Os cânones
Creio que a problemática dos cânones pode ser eficaz para entender a construção destes cadernos e ajudar a traçar o lugar da literatura estrangeira neles.
Robert Darnton (1990:145) pensa a questão dos cânones de forma clara e simples.
Os grandes livros fazem parte de um conjunto canônico de clássicos selecionados retrospectivamente, ao longo dos anos, pelos profissionais que se encarregaram da literatura - isto é, pelos críticos e professores universitários cujos sucessores agora desconstroem-na. Esse tipo de literatura talvez nunca tenha sequer existido fora da imaginação dos profissionais e seus estudantes.
É como se existisse uma grande enciclopédia literária sendo construída pela elite intelectual, que indica o que deve ser selecionado e o que deve ser excluído, apontando o que deve ser lido e permanecer para a posteridade. Muitas vezes os meios de comunicação reforçam estas escolhas, apresentando e reapresentando estas obras para o consumidor, estimulando-o a gostar do já conhecido e do já visto.
A questão das classificações em torno da literatura é muito complexa e polêmica. Para Charles Altieri o cânone é um repertório de invenções e desafios à nossa capacidade de desenvolver gêneros e estilos. Ele tem uma função normativa e outra curadora, estabelecendo regras e parâmetros para o trabalho criativo e elaborando uma espécie de gramática. Outro aspecto ressaltado por Altieri (1990:33) é a idealização.
Works we canonize tend to project ideals, and the roles we can imagine for the canon require us to consider seriously the place of idealization in social life. By ‘idealization’ I mean not the projection of propaganda but rather the effort to make the authorial act of mind or certain qualities in fictional characters seem valuable attitudes with which an audience is moved to identify”.
O que pretendo discutir aqui é se esta noção de cânone é importante para os quatro cadernos e em que medida suas matérias e resenhas expressam uma preocupação com a obra “ideal”.
O Libérationtem grande interesse pela literatura de outros países e lhe dá bastante destaque, o que não ocorre com a mesma intensidade Monde. Nos anos 90, Les Livres deu muita atenção para a literatura estrangeira e um exemplo disso é que de 50 capas, seis são de escritores franceses, onze de ensaios, sete sobre o mercado editorial e 28 são de literatura estrangeira, sendo a capa da primeira edição do caderno o escritor português Miguel Torga. Já Le Monde des Livres só escolheu obras estrangeiras para capa de nove de seus 50 exemplares selecionados para estudo. O caderno Idéias abordou a literatura de outros países em 13 capas e o Mais! em sete. Dos quatro jornais é o Libérationquem mais valoriza a literatura estrangeira no discurso de sua equipe e na prática, seguido do Idéias. Este é um dado interessante que aponta para diversos desdobramentos. Quais as literaturas abordadas e dentro delas quais os seus autores? São escritores já consagrados ou novos autores ?
A ênfase nos cânones também está presente nos outros três cadernos. O Idéias, por exemplo, deu capa para: Marcel Proust, T.S. Eliot, James Joyce, Honoré de Balzac, John Updike, José Saramago, Ismail Kadaré e Robert Arlt. O Mais! selecionou Albert Camus, Hervé Guibert, La Fontaine, Kafka, Umberto Eco e José Saramago. Há nos dois cadernos um lado dos “clássicos” e tradicionais e uma outra vertente dos “modernos”, ainda que esta última com bem menos espaço e poucos autores. Os dois jornais colocaram ao lado dos não tradicionais o escritor francês Hervé Guibert. Seria possível pensar uma categoria que abarcasse clássicos e cânones, e outra escritores com grande prestígio e notoriedade como Milan Kundera e Umberto Eco, por exemplo.
O Libérationaposta na possibilidade de tradução e na capacidade da língua francesa de trazer um pouco de outros mundos tão diversos para a proximidade do público francês. É o caso das matérias que tratam da literatura da Eslovênia, da Somália e da Palestina. Ao enfocar o escritor Nuruddin Farah da Somália, exilado na Nigéria por exemplo, o Libérationbusca uma outra literatura, uma outra forma de escritura diferente da francesa e considerada de qualidade. A ênfase não é apenas política, mas está estreitamente ligada ao estilo e tipo de texto que o autor produz. Ao mesmo tempo, o jornal associa o escritor e sua obra ao discurso sobre a diferença. E termina a matéria declarando: “Il est devenu l’un des chantres les plus convaincants de l’éloge de la différence”.( Ele se tornou uma das vozes mais convincentes do elogio da diferença).
Esta noção da diferença em relação à literatura me faz lembrar a obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari (1981:25) Por uma literatura menor. Uma das primeiras definições que os autores dão para esta literatura menor parece relacionada com o que os suplementos estão trazendo para sua páginas na rubriquede literatura estrangeira.
Uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior. No entanto, a primeira característica é, de qualquer modo, que a língua aí é modificada por um forte coeficiente de desterritorialização. Kafka define, nesse sentido, o beco sem saída que barra aos judeus de Praga o acesso à escritura e que faz da literatura deles algo impossível: impossibilidade de não escrever, impossibilidade de escrever em alemão, impossibilidade de escrever de outra maneira”.
Esta questão da impossibilidade e da necessidade da escrita está vinculada aos dois tipos de literatura tratados pelo Libération. A literatura palestina e a necessidade de seus autores produzirem em sua língua, a dificuldade do poeta em escrever em outra língua e o vínculo estreito de Nuruddin com seu país e sua expressão literária. É preciso enfatizar o quanto a defesa da língua está imbricada na questão da identidade e da consciência nacional.
Gostaria de comentar, ainda que rapidamente, o tratamento dado pelo jornal à literatura brasileira. Durante os sete primeiros anos da década de 90, Libération publicou 11 matérias, reportagens, resenhas ou notas sobre autores e obras brasileiras. Mereceram capa Os Sertõese Quincas Borba, além de Paulo Coelho, abordado como um fenômeno editorial internacional. As matérias sobre os dois livros têm muitas informações sobre as obras, estilos e o contexto do país, particularmente no caso de Euclides da Cunha. A reportagem sobre o livro de Machado de Assis faz alusão á expressão “ ao vencedor as batatas” e traz trechos do ensaio de Roberto Schwarz O texto é cuidadoso com os dados sobre o autor, ressalta sua ironia, assim como utiliza com precisão termos em português. As outras “notícias literárias do Brasil” repetem em menor dimensão o tratamento dado aos dois escritores. Elas abordam: Guimarães, Rosa, Clarice Lispector, Darcy Ribeiro, Osman Lins, Nelson Rodrigues, Mário de Andrade e Graciliano Ramos.
No Monde os escritores estrangeiros valorizados são aqueles de renome internacional. Os destaques de capa foram: Anthony Burguess, Nadine Gordimer, Octavio Paz, Nathaniel Hawthorne, William Shakespeare, Oscar Wilde, Fernando Pessoa. Essa pequena amostragem aponta para a ênfase em figuras já consagradas internacionalmente, sendo várias delas parte dos cânones da literatura mundial, como Shakespeare, por exemplo. O intuito do jornal não é apresentar o que há de novo em termos de literatura em países menos cohecidos do leitor ou obras de autores novos e promissores ainda pouco divulgadas na França. O jornal, como veículo de massa, está ajudando a reafirmar esses cânones.
Vale investigar qual o tratamento dado por Le Monde a W. Shakespeare. O título é “Shakespeare en direct”. A ênfase da matéria está no lançamento de uma nova tradução, original e bilíngüe que ressalta a audácia, a crueza e a verdade que fazem desse autor o primeiro herdeiro das tragédias gregas e o profeta da emoção moderna. E mais do que tomar conhecimento do texto, é preciso lê-lo no original, como declara o suplemento na resenha assinada pelo escritor Philippe Sollers. Para ele é preciso ler Shakespeare na sua língua, já que as traduções fazem o que podem, mas envelhecem e portanto uma boa edição desse “monumento” deve ser bilíngüe.
A resenha reforça o caráter “sacro” desta obra literária. A utilização do termo monumento só enfatiza esta idéia. Trata-se de uma obra e de um autor acima da crítica. O livro é uma jóia que o tempo não destrói nem corrói. Aqui há também uma aposta no leitor culto e erudito do caderno, que terá um bom conhecimento da língua inglesa para apreciar o texto. É curioso como ao mesmo tempo que o jornal destaca Shakespeare e sua importância, a tradução não é considerada a leitura ideal ou correta. Os grande autores, os “cânones” principalmente devem ser lidos em sua própria língua. Le Monde des Livres, ao contrário do suplemento do Libération não aposta na tradução. Como o texto de Sollers salienta, há boas e más traduções, o ideal é ler no original.
A literatura brasileira aparece no Mondenos anos 90 através de Jorge Amado com três livros, Zélia Gattai, Lygia Fagundes Telles e Machado de Assis. O único escritor a merecer capa do suplemento e resenha de página interia com Memorial de Airesfoi Machado de Assis. Estas matérias reforçam uma idéia de Brasil e dão a impressão de uma literatura cristalizada em determinados escritores com número bem menor do que o Libération. Jorge Amado é o autor brasileiro de maior prestígio internacional e seus livros de temática regional com mulatas e carnaval ajudam a construir a imagem de paraíso tropical
Esta seleção apresenta um clichê em relação a literatura brasileira e reforça o ponto de vista de Paul Dirkx sobre o tratamento dado à literatura belga em Le Figaro Litteraire de 1944 a 1960.
Les rédacteurs du FL mettent en avant les aspects les mieux connus, les plus officiels et les plus scolaires du passé de la ´litterature belge´, et c´est cette sélection qui est susceptible de produire chez le lecteur une impression général de vieillissement des agents et des oeuvres.”
Em relação aos suplementos brasileiros, é interessante avaliar o caso específico das obras de autores franceses, para perceber qual a lógica para escolha das capas e das matérias do Idéiase do Mais! Um dado salta aos olhos em uma primeira leitura, que é o fato de a literatura francesa não ser preponderante nos suplementos brasileiros, ao contrário de seus intelectuais e pensadores, que permanecem com grande prestígio junto à imprensa. Ao longo desta década o Idéias fez sete capas com escritores franceses em 50 edições selecionadas, além de mais 10 matérias sobre livros de literatura francesa. Foram para primeira página: Marcel Proust, Hervé Guibert, Albert Camus, André Malraux, Milan Kundera e Blaise Cendrars.(Kundera é theco mas naturalizou-se francês e escreve naquela língua).
A matéria sobre Camus teve grande destaque e trata do lançamento no Brasil de seu romance autobiográfico O primeiro homem. Nesse caso, ao lado da atenção dada a um autor bastante conhecido do público brasileiro, há um outro dado presente no texto do jornalista João Domenech Oneto: a ênfase na escolha do repórter do caderno, no seu “gosto” pessoal. Não quero dizer que a opção por Camus seja apenas fruto de uma preferência pessoal. Trata-se de um escritor de renome, ganhador do Prêmio Nobel. Entretanto, a matéria está impregnada de subjetividade e de amor à obra. Fato raro dentro do estilo jornalístico, que se obrigava a demonstrar objetividade e isenção acima de tudo. Portanto, essa noção de envolvimento com o objeto aplicada à imprensa e aos seus jornalistas, também atinge os próprios veículos de comunicação de hoje que assumem a impossibilidade de neutralidade e esfacelam esse “mito” no próprio texto.
Por outro lado, a afirmação do gosto pessoal no texto jornalístico tem uma função importante junto ao leitor no sentido de apontar caminhos e indicar obras e escritores. O Idéias se coloca neste lugar que Antonio Cândido (1985:77) chamou de “lideranças do gosto”.
Um público se configura pela existência e natureza dos meios de comunicação, pela formação de uma opinião literária e a diferenciação de setores mais restritos que tendem à liderança do gosto - as elites. O primeiro fator envolve o grau de ilustração, os hábitos intelectuais, os instrumentos de divulgação( livro, jornal, auditórios, etc,); o segundo e o terceiro se definem automaticamente.
E os cadernos de livros atuam exatamente dentro dessa idéia de formação de uma opinião literária, do que deve e merece ser lido. O caderno Mais! lida com a literatura francesa e seus pensadores de forma bastante diferente. Um caso exemplar deste tipo de tratamento é a capa com o escritor La Fontaine, considerado “o poeta das fábulas”. Ele mereceu uma reportagem subre sua vida, um ensaio da crítica literária Leyla Perrone-Moisés, além de novas versões de sete fábulas criadas por poetas brasileiros sob encomenda do jornal. Ou seja, se a Folha traz um autor francês “clássico”, muito conhecido de seu público leitor, ela vai não só promover uma reflexão crítica sobre o escritor, mas a reescritura de suas fábulas mais conhecidas. Apostando assim, em um novo perfil para os suplementos, não se restringindo a falar de e sobre literatura, mas avançando e apresentando uma reescritura da literatura. Reescritura que aponta para a percepção da obra de arte como original, única, com uma “aura” e com as inovações técnicas que possibilitam reproduzi-la gerando uma reestruturação na própria definição de obra de arte, como escreve Walter Benjamim (1993). Ao mesmo tempo, é possível fazer uma outra leitura da atitude do suplemento ao solicitar que textos clássicos sejam reescritos por poetas da atualidade. Para Marici Passini (1993:20), “A reescritura dá a uma obra o estatuto de modelo apenas para destituí-la logo adiante”. Na medida em que os próprios conceitos de original e cópia se tornaram mais fluidos na modernidade. “Tudo é simulacro”, afirmava Jean Baudrillard (1986). Essa dessacralização do texto literário que o jornal provoca é uma percepção de que o texto literário não está acabado e pronto para a eternidade. Ao contrário, sua riqueza está na possibilidade de lê-lo sempre e de poder transformá-lo, como ressaltou Jorge Luis Borges (1991:67):
Pressupor que toda recombinação de elemento
obrigatoriamente inferior a seu original é pressupor que o rascunho G é obrigatoriamente inferior ao rascunho H - já que não podem existir senão rascunhos. O conceito de texto definitivo só corresponde à religião ou ao cansaço.
Este tipo de tratamento dado à obra literária considerada “canônica” é uma vertente inovadora e diferenciada das escolhidas pelos outros três suplementos literários.
A questão dos cânones traz à tona a lógica jornalística que impera na imprensa. Os autores famosos e as personalidades do meio editorial e literário serão sempre “notícia”, e conseqüentemente também as suas obras. Há um esforço de alguns cadernos, particularmente Les Livres e também, ainda que de outra maneira, dos suplementos brasileiros de romper com a própria expectativa dos leitores. O caderno que atinge este objetivo com maior intensidade é o do jornal Libération, que apresenta escritores desconhecidos do público francês. O Mais! com sua postura dessacralizante, investe na idéia de reescritura provocando reflexão, ainda que não apresente literaturas ou autores desconhecidos. Ficou claro também o quanto a literatura francesa e os pensadores franceses têm espaço garantido nos jornais brasileiros, diferentemente do que acontece com a literatura brasileira, que não merece muita atenção, com exceção de obras renomadas e traduzidas para o francês.
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